Agenda cheia, equipe correndo, WhatsApp apitando o dia inteiro – e no fim do mês sobra a sensação de que o caixa não acompanhou o movimento. Isso quase sempre acontece por um motivo bem específico: o banho e tosa está sendo precificado por “feeling” e não por margem. E, sem margem, não existe lucro previsível.
O que você quer, na prática, não é “ver se sobrou dinheiro”. É conseguir responder com rapidez: quanto eu ganho em cada banho? Em quais portes eu ganho mais? Onde o lucro some – na comissão, no tempo, no retrabalho, na taxa da maquininha?
A seguir, você vai ver como calcular lucro do banho e tosa com um método simples e executável, do jeito que um gestor precisa: números que cabem em uma planilha e viram decisão de preço, escala e agenda.
O que é lucro no banho e tosa (e por que confunde)
Lucro não é o que entrou no caixa. Lucro é o que sobra depois de pagar tudo o que aquele serviço consome – inclusive a sua operação.
No banho e tosa, a confusão começa porque parte dos custos é “invisível” no dia a dia: água, energia, lâmina que perde fio, toalha que some, tempo de secagem que trava a agenda, comissão que incentiva fazer mais rápido, mas aumenta retrabalho. Quando você não coloca isso na conta, o serviço parece rentável – até a hora de pagar folha, aluguel e impostos.
Para organizar, pense em três camadas:
- Receita do serviço (o preço que você cobra).
- Custos variáveis (o que aumenta a cada atendimento).
- Custos fixos rateados (o que existe mesmo se você não atender ninguém naquele dia).
Lucro, então, é receita menos os custos variáveis menos a fatia dos custos fixos.
Como calcular lucro do banho e tosa: a fórmula que manda no jogo
A fórmula é direta:
Lucro por serviço = Preço cobrado – Custos variáveis do serviço – Rateio de custos fixos – Impostos do serviço
E a margem de lucro (%) fica assim:
Margem de lucro = Lucro por serviço / Preço cobrado
O pulo do gato não é a fórmula. É estimar bem cada pedaço, sem se perder em detalhe desnecessário.
Passo 1: defina o “serviço padrão” que você vai medir
Se você tentar medir tudo ao mesmo tempo, você trava. Comece com 1 a 3 serviços campeões de volume, por exemplo: banho P, banho M e banho G (ou “banho + tosa” por porte).
O ideal é que cada “serviço padrão” tenha processo consistente: pré-atendimento, banho, secagem, finalização, laço, perfume. Se cada tosador faz de um jeito, o custo de tempo vira uma loteria – e lucro não combina com loteria.
Passo 2: calcule os custos variáveis do banho e tosa (por atendimento)
Custos variáveis são aqueles que crescem conforme você atende mais. Aqui entram insumos e gastos diretamente ligados ao serviço.
No banho e tosa, normalmente você vai considerar:
- Produtos: shampoo, condicionador, máscara, neutralizador, perfume, limpeza de ouvido.
- Materiais: algodão, laço, toalha descartável (se usar), sacos e luvas.
- Taxas: maquininha de cartão, plataformas de pagamento, eventuais cupons.
- Comissão por serviço (quando ela é por produção).
Para produtos, o caminho mais prático é custo por ml. Você pega o preço do galão, divide pelo volume e depois estima quantos ml usa por porte. Não precisa ser perfeito de primeira. Precisa ser consistente e revisado.
Exemplo rápido: shampoo de 5.000 ml custa R$ 120. Custo por ml = 120/5000 = R$ 0,024. Se um banho M usa 60 ml, custo do shampoo = 60 x 0,024 = R$ 1,44. Faça isso para os principais itens e você já sai do achismo.
Sobre comissão: se o profissional recebe X% por atendimento, isso é variável. Se ele recebe salário fixo, isso vai para custo fixo. Em operações mistas (salário + bonificação), você separa: salário em fixo e bonificação em variável.
Passo 3: transforme tempo em custo (o ponto que mais drena lucro)
Mesmo que você trate mão de obra como fixa, o tempo é o limitador real da sua agenda. Se um serviço demora 30% a mais do que deveria, o “custo” aparece como capacidade perdida.
Por isso, vale calcular também um indicador complementar: lucro por hora.
Para chegar nele, você precisa do tempo médio por porte. Meça por amostragem. Em uma semana, anote início e fim de 20 atendimentos por categoria e faça a média. Se você não mede, a equipe sempre vai “achar que está rápido”.
Depois, use:
Lucro por hora = Lucro por serviço / Tempo médio (em horas)
Esse número é ótimo para decidir o que priorizar na agenda, como encaixar retornos e em quais portes vale abrir promoção.
Passo 4: rateie custos fixos sem complicar
Custos fixos são os que existem todo mês: aluguel, internet, sistema, contador, limpeza, depreciação de equipamentos, salários fixos, encargos, pró-labore, parte administrativa.
O erro comum é ratear “no chute” ou não ratear nada. Você não precisa fazer contabilidade completa. Precisa de um rateio justo que reflita a sua capacidade.
Existem duas formas práticas:
Rateio por quantidade de atendimentos
Você soma seus custos fixos mensais e divide pelo número de atendimentos do mês.
Custo fixo por atendimento = Custos fixos do mês / Número de serviços realizados
Funciona bem quando seus serviços têm tempos parecidos e você tem disciplina de registrar tudo.
Rateio por hora de operação
Mais preciso para banho e tosa, porque o gargalo é tempo.
Custo fixo por hora = Custos fixos do mês / Total de horas produtivas do mês
Depois:
Rateio fixo do serviço = Custo fixo por hora x Tempo médio do serviço
Horas produtivas não são “horas de loja aberta”. São horas de produção real (banho, secagem, tosa). Se você abre 10 horas por dia, mas perde 2 horas em atrasos, encaixes mal planejados e espera de tutor, sua hora produtiva é menor – e seu custo por hora sobe.
Passo 5: inclua impostos e custos “esquecidos”
Imposto é o tipo de custo que some do radar quando o caixa está girando. Se você está no Simples, você pode estimar uma alíquota média efetiva sobre a receita, de acordo com o seu anexo e faixa. Se você não sabe a alíquota efetiva, pegue a média dos últimos meses com seu contador e use como referência.
Além disso, alguns custos merecem entrar na conta porque matam margem no banho e tosa:
- Retrabalho: banho que volta porque “não ficou cheiroso”, tosa que precisa de ajuste, secagem incompleta. Isso consome tempo e produto sem nova receita.
- Descontos e cortesias: quando viram hábito, são custo variável disfarçado.
- Não comparecimento: o horário vazio tem custo fixo, mesmo sem serviço.
Você pode modelar retrabalho como um percentual de custo extra. Exemplo: se 5% dos serviços geram retrabalho equivalente a 50% de um serviço, então seu “custo de retrabalho” médio é 2,5% do custo total daquele serviço. Não é elegante, mas é realista e ajuda a precificar.
Exemplo completo (para você adaptar)
Vamos imaginar um Banho + Tosa M com preço de R$ 110.
Custos variáveis estimados:
- Produtos e materiais: R$ 8
- Taxa do cartão (2,5%): R$ 2,75
- Comissão do tosador (30%): R$ 33
Total variável: R$ 43,75
Custos fixos:
- Custos fixos mensais (aluguel, salários fixos, encargos, etc.): R$ 28.000
- Horas produtivas mensais: 320 horas
Custo fixo por hora = 28.000 / 320 = R$ 87,50
Tempo médio do serviço: 1,1 hora
Rateio fixo do serviço = 87,50 x 1,1 = R$ 96,25
Impostos:
- Alíquota efetiva estimada: 6%
- Imposto no serviço: 110 x 0,06 = R$ 6,60
Agora o lucro:
Lucro por serviço = 110 – 43,75 – 96,25 – 6,60 = -R$ 36,60
Esse exemplo dói, mas ele acontece. E quando acontece, explica perfeitamente a sensação de “lotou a agenda e esvaziou o caixa”. Repare que o vilão não é só o produto. É o custo fixo por hora alto, combinado com tempo médio elevado e comissão agressiva.
O que fazer, então? Ajustar preço pode ser necessário, mas nem sempre é o primeiro movimento. Às vezes você ganha mais atacando o tempo, o rateio (aumentando ocupação), e o desenho de comissão.
Onde o lucro some na prática (e o que ajustar)
Se o seu cálculo mostra margem baixa, evite o reflexo de subir tudo de uma vez. Primeiro, encontre qual alavanca está mais desalinhada.
Se o peso está no custo fixo por hora, você tem dois caminhos: reduzir fixo (difícil e lento) ou aumentar horas produtivas com agenda bem encaixada, confirmação automática e menos “buracos”. Se o problema é tempo médio alto, padronização e treinamento resolvem mais do que promoção. Se a comissão está alta para a sua realidade, você pode reequilibrar com metas de qualidade (menos retrabalho) e produtividade (tempo por porte), sem punir o bom profissional.
Também vale olhar para o mix. Às vezes um porte específico ou uma tosa muito técnica deveria ter preço e tempo próprios, e não estar escondido dentro de uma tabela genérica. “Tosa na tesoura” e “tosa higiênica” não podem viver com o mesmo raciocínio de custo.
Como transformar cálculo em rotina (sem virar refém de planilha)
O cálculo só vira lucro quando vira processo. O mínimo que funciona é:
- Registrar corretamente cada serviço (porte, tipo, adicional, desconto, forma de pagamento).
- Ter tempo médio por categoria atualizado ao menos a cada trimestre.
- Revisar tabela quando mudar produto, comissão, aluguel, ou quando a ocupação cair.
Se você já está sentindo que a dor é menos “fazer conta” e mais “ter dado confiável”, um sistema de gestão especializado ajuda porque amarra agenda, execução e financeiro no mesmo lugar. A ZettaPET publica conteúdos e rotinas de gestão no (https://blog.zettapet.com.br) que ajudam a sair do modo sobrevivência e colocar margem no centro das decisões.
Uma regra simples para a próxima decisão de preço
Toda vez que alguém pedir desconto no banho e tosa, pare e pense: eu estou reduzindo do lucro ou estou pagando para atender? Se você não sabe responder em 10 segundos, o problema não é o cliente – é a sua visibilidade de custos.
A boa notícia é que lucro no banho e tosa não depende de mágica. Depende de clareza: saber o custo real por porte, proteger o tempo da operação e tratar retrabalho e buraco de agenda como inimigos de margem. Quando isso entra na rotina, a agenda pode até continuar cheia – mas, finalmente, o caixa acompanha.





